Chego do trabalho e adentro o apartamento vazio. Desato a gravata e corro o olhar em volta… Paredes, almofadas, tv, fotografias e uma sensação instântanea de solidão. Mas é uma coisa doce. Uma solidão que não pesa. Uma preguiça de sentir. Ligo o rádio e penso em como não pensar no que penso e alimento de tédio minha visão momentaneamente. Não sei porque faço o que faço: trabalho, mulheres, contas, àlcool… Nem sei se faço mesmo. Vejo gente feliz organizando seus casamentos fracassados antes do início. Gente se envaidecendo do que tinham que ter pelo menos vergonha. Idiotas cheios de orgulho por trabalharem 30 anos no mesmo emprego e um seguro de vida… Meu deus, que tipo de fudido faz seguro de vida? Não coloque seu filho no balé, coloque no judô, não se esqueça: a estupidez tem a cara do homem… Você é apenas uma cara que envelheceu rápido parceiro. Você precisa exatamento do que você não conhece! Mas não é o apartamento vazio. E o vazio… O vazio que está grudado em todo mundo e não interessa quem seja, ou que pense, ou o que escreva, ou o que coma, ou o que cague… Tudo desce pelo mesmo ralo onde escoa todas as nossas merdas cotidianas. Você vai lutar todos os dias a luta que já perdeu e vai fingir da forma mais convincente e ridícula possível de que é assim que se faz. Não sei se é o conto de uma vida num inverno tenebroso ou um tenebroso conto de inverno numa vida ou, ainda, a tenebrosa vida de um conto de inverno… Tudo é a mesma merda e também merdas diferentes. Não estou chateado com nada. Não estou vulgarmente triste nem depressivamente criativo. Sinceramente, nem sei como estou quando insisto um pouco mais comigo mesmo. Tiro os sapatos e vou até o banheiro e a mijada relaxante me mostra que não se pode querer muita coisa mesmo. A menina me contou sobre seu pai alcólatra assasssinado pela puta que queria seu dinheiro e aquilo tudo me acertou a cabeça e não pude esquecer… Ninguém escolhe nada e quando se pensa que se está escolhendo trata-se apenas do primeiro engano. Continue com seu trabalho estúpido, com suas trepadas de sete minutos, com seu casamento lindo e perfeito e comporte-se na hora do rush dentro do seu carro. Para onde você quer ir?
H. Luz