Iceberg

Se meu cansaço de repente encontrasse porto
Meu mar de tédio oscilaria em doces ondas
Mas minha percepção é de névoa infinda
E à deriva sigo todos os rumos e nenhum
As ondas hora batem forte, hora abrandam
Minha maresia enferrujou todos os ânimos
E até o desejo, certas manhãs, sente-se mareado
Desespero à vista… Mentira, miragem
Segue sem leme, sem timão
Porque também são utópicos
Há muito entre o céu e a superfície
Só não nos é concedido ver
As profundidades são paras os iluminados
E quando mentiram as aparências
Nem os iceberg’s apareceram!

H. Luz


Poesia Pobre

E porque te amei como maluco
É como maluco que não sei mais
Não sei mais quem é você
Poesia pobre
Não sei mais o que é amar
Samba triste
Não sei mais quem sou
Noite de domingo
Tudo permanece
Mas são ruínas que brilham
E a maior loucura é querer
Porque desejo nunca é razoável
E entre eu e você
Há toda a sacanagem de Deus!

H. Luz


Para onde?

Chego do trabalho e adentro o apartamento vazio. Desato a gravata e corro o olhar em volta… Paredes, almofadas, tv, fotografias e uma sensação instântanea de solidão. Mas é uma coisa doce. Uma solidão que não pesa. Uma preguiça de sentir. Ligo o rádio e penso em como não pensar no que penso e alimento de tédio minha visão momentaneamente. Não sei porque faço o que faço: trabalho, mulheres, contas, àlcool… Nem sei se faço mesmo. Vejo gente feliz organizando seus casamentos fracassados antes do início. Gente se envaidecendo do que tinham que ter pelo menos vergonha. Idiotas cheios de orgulho por trabalharem 30 anos no mesmo emprego e um seguro de vida… Meu deus, que tipo de fudido faz seguro de vida? Não coloque seu filho no balé, coloque no judô, não se esqueça: a estupidez tem a cara do homem… Você é apenas uma cara que envelheceu rápido parceiro. Você precisa exatamento do que você não conhece! Mas não é o apartamento vazio. E o vazio… O vazio que está grudado em todo mundo e não interessa quem seja, ou que pense, ou o que escreva, ou o que coma, ou o que cague… Tudo desce pelo mesmo ralo onde escoa todas as nossas merdas cotidianas. Você vai lutar todos os dias a luta que já perdeu e vai fingir da forma mais convincente e ridícula possível de que é assim que se faz. Não sei se é o conto de uma vida num inverno tenebroso ou um tenebroso conto de inverno numa vida ou, ainda, a tenebrosa vida de um conto de inverno… Tudo é a mesma merda e também merdas diferentes. Não estou chateado com nada. Não estou vulgarmente triste nem depressivamente criativo. Sinceramente, nem sei como estou quando insisto um pouco mais comigo mesmo. Tiro os sapatos e vou até o banheiro e a mijada relaxante me mostra que não se pode querer muita coisa mesmo. A menina me contou sobre seu pai alcólatra assasssinado pela puta que queria seu dinheiro e aquilo tudo me acertou a cabeça e não pude esquecer… Ninguém escolhe nada e quando se pensa que se está escolhendo trata-se apenas do primeiro engano. Continue com seu trabalho estúpido, com suas trepadas de sete minutos, com seu casamento lindo e perfeito e comporte-se na hora do rush dentro do seu carro. Para onde você quer ir?

H. Luz


Tempo(ral)

O tempo vai esculpindo seu trabalho
É absoluto, inescrutável
Não se rebele
É ditador também
De nada adiantam os receios
De nada adiantam as fórmulas
Envelhecer é sua piada
Há quem alimenta a fé
E desnutre o espírito
Há quem se fortaleça
Para enfraquecer não sei quê
Conquistas só são belas até serem conquistadas
O tempo também gosta de ser irônico
Adora brincar com a estupidez humana
E não há compasso que não perverta
Tempo é o deus mais vil
Ou o vilão mais divino
Depende do “metatempo”
Por isso usamos artemanhas
Teias de aranha
Museus temáticos
Bancos de dados
Saudade!
Sonhe sem dormir
Ande parado
Grite em silêncio
Morra vivendo o seu tempo.

H. Luz


E o Amor?

Uma lambida de lembrança
Um olhar de cansaço
Um quadro enferrujado
E o nosso amor…
Uma fogueira tornada cinzas
Um tiroteio em oração
Uma última refeição
E o amor dos outros?
O velho apagar de luzes
O novo engano repetido
O gosto conhecido e enjoado
E o amor?
Menos uma noite de domingo
Menos um fim de semana
Menos tempo pra cumprir
E o amor…
Paus
Bocetas
Lágrimas
Amor!


Pequena Orgia Frustrada

Minha vida parece uma pequena orgia frustrada: alegrias fugazes seguidas de longos períodos de tédio e falta de qualquer vontade. Eu sou um bom perdedor… Sei que nunca entenderei minha busca. Sei, inclusive, que nem sei se há uma busca. Recebi propostas, fiz alguns caminhos, criei coisas, destruí outras, dormi em outras camas, olhei outros olhos, mudei da trabalho, de casa, de idéia… E tudo isso agora me parece tão igual o contrário disso tudo. Como se a existência se alinha-se numa forma plana para designificar praticamente tudo! O trabalho me espera amanhã pela manhã. O mundo me espera amanhã pela manhã: trânsito, bizinas, sirenes, pessoas, vaidades, arrogâncias, estupidez… Não há desculpas! Qualquer momento de calma me traz sentimento de tristeza…

H. Luz


Elas

Maria tem muita carne e pouca alma. Muita vulgaridade nos bolsos… Perfeita! Joana já é como um pôr-do-sol… Linda pra quem entende e pra quem não entende. Tem uma mania bonita de olhar pela janela como quem vê algo que ninguém mais vê e quando se trata de interpessoalidade é o mesmo. Isabel acredita em lindos sonhos regados e cultivados em algodão molhado mas trepa como uma lince ferida! Como se libertasse através da vagina, é capaz de fazer você querer desisitir dessa coisa que chamam sexo! Ana é um peixe ensaboado: nunca se sabe o que ela tem em mente ou de onde vem ou o que realmente quer. Está sempre escorregando por entre os dedos, por entre os braços, por entre os olhares… A imagem da serpente tatuada nas costas de Isabel me atraí estranhamente e os olhos de Ana são como amuletos hipnotizantes, o maravilhoso rabo de Maria melhora minha condição humana e a aveludada voz de Joana me faz até ter esperanças! Ana sempre pergunta pelo meu filho e adora falar dos dela. Joana adora ouvir música enquanto trepa – tem sempre uma trilha sonora pronta na cachola. Maria não consegue ter vaidade mesmo como todo aquele arsenal e Isabel adora me enrolar como seu estivesse mesmo afim de lhe encher o saco – não sei exatemente porque. Não me recordo quais adoram poesia,sexo oral, carros, dinheiro, drogas… Nem as que detestam! Às vezes misturo uma com outra pra conseguir lidar melhor… Quando as penso assim, separadas em si, imagino que algo deu errado… Como se lá no inferno onde se produzem as mulheres tudo estivesse confuso: a alma destinada àquela ali acabou indo parar naquela outra lá e o corpo que era para esta aqui acabou ficando com aquela e assim vai… Eu não sei… Todas elas são fantásticas e horríveis em alguma coisa. De repente esse seja o equilíbrio que esse caos todo gera! Provavelmente chegará um ponto em que vou misturar todas elas numa só batida pra beber num só gole… Daqui a pouco já nem saberei mais quem é quem… Inclusive eu mesmo.

H. Luz


Oração do Desespero

Pela angústia e agonia das trincheiras
Pelo silêncio dos solitários noturnos
Pela cidade alheia a qualquer um
Pela dor calada no sufoco do cotidiano
Pela cara-de-pau dos governos
Pelo anonimato dos que só se fodem
Pela inutilidade histórica dos gritos de socorro
Pela bomba “H”
Pela revolução industrial partidária
Pelo estado democrático de direitos
Pela política nacional de saúde e desespero
Pela história contada pelos donos da História
Pela pobreza de espírito dos países ricos
Pela nobreza pisoteada dos pacíficos
Pela santa inquisição
Pela pátria que nos pariu
Pelos livros não lidos
Pelas canções não ouvidas
Pelas toneladas de pratos sem comida
Pela náusea das questões sem resposta
Pelo estupro estatal dirigido
Pelas balas perdidas
Pelos Kalashnikov’s
Pela Enola Gay
Pelos Estados Unidos da América
Por Wall Street
Pela invasão Luso-espanhola
Pela tristeza dos Balcãs
Pelas idas sem voltas
Pelos poemas sufocados pelos salários
Pelas almas violadas
Pelo FMI, BID, ONU
Pelos parlamentos inócuos
Pela igenuidade esmagada dos sinceros
Pelo fogo cruzado onde não está a cruz
Pelas gargalhadas dos responsáveis de tantas lágrimas
Pela estupidez e toda espécie de intolerância e hipocrisia…

Um munito de gritos a plenos pulmões!

H. Luz


Incendiário adormecido…
Está tudo bem
Está tudo em ordem
Nada que se fazer
Nada que se dizer
O mundo jaz em cinzas…
H.Luz

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Quando tudo está bem me calo
Como numa necessidade de inquietude
O espírito esfalece em silêncio
Arte alimenta-se de perturbação!
Um espírito em paz:
Nada de interessante a dizer…

H. Luz

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